Skip to content

Coceirinha.

Segunda-feira, 31 - Maio, 2010

Galera que acompanha o lobo. sempre fui meio metido a escrever contos. Nada demais.

E sempre escrevo sobre coisas que li e minhas “viagens” gigantescas. Esses dias para trás li uma reportagem sobre a coceira na excelente Revista Piauí e sabia que não ficaria bem se não escrevesse sobre isso um conto bem sem noção… e lá vai ele…

Ahh… sempre falo para ouvir uma música ao ouvir… hoje eu indico “psychological recovery… 6 months” do hans zimmer. excelente trilha para um filme excelente… ainda mais feita pelo hans… segue o link da música no meu blip.fm…

http://blip.fm/profile/diegodondiego/blip/44718656/Sherlock+Holmes%E2%80%93Psychological+Recovery%E2%80%936+months%E2%80%93Soundtrack

*  *  *

Aquele dia complicado, aquela segunda cinzenta, começa a acontecer bem ao redor dela. Ela, ainda deitada na cama, tinha um misto de medo e preguiça para levantar porque sabia que o dia ia ser complicado. E foi. Chegou em casa, cansada, estressada e com muita raiva; descontou numa lasagna que a mãe mandou e depois num pote de sorvete. Decidiu tomar um banho antes de dormir porque sentia o cabelo “sujo” depois de um dia de trabalho “daqueles”…

Debaixo do chuveiro, sentia a água levar dela todos os problemas, toda a dificuldade, todos o ônus do trabalho árduo dele de hoje. Trabalho que deu certo, tudo correu como deveria; e ela, pegando o xampú com uma das mãos sentiu algo no cabelo. Bem em cima da cabeça, mas mais para trás um pouco, logo antes da nuca… não era um bicho nem nada que despertasse gritos e medos… só uma coceirinha pequenina. Atravessando o cabelo com a mão conseguiu chegar no epicentro da coceira, coçou-a e tudo ficou melhor. Pegou o xampú e lavou o cabelo.

No outro dia cedo, acordou mais sossegada porque sabia que a folga dela estava chegando. Feriadão de quinta e já era terça… “excelente!”. Maria Paula até acordou mais disposta, rápido e até um pouco mais alerta que o normal. Só não entendeu um pouco alguns fios de cabelo presos na mão e sua unha meio suja. Parecia terra… olhou a parede, não tinha nenhum buraco. Olhou o travesseiro, marca de sangue… pôs a mão no cabelo e sentiu um lugar sem cabelo, com a pele irritada. Assustada, foi ao banheiro.

Lá, num jogo de espelhos viu um pequeno clarão com pele irritada no meio da cabeleira dela. Bonita e muito bem tratada… por isso culpou inicialmente o xampú novo. Pegou o frasco, leu… era de uma marca boa… ignorou, já que tinha que ir trabalhar. Deu uma arrumada no cabelo, escondeu o pequeno vazio no seu cabelo e foi trabalhar.

Dia estressante. Reunião com os chefes, projetos prontos para serem feitos. E seu chefe, um chato… pegava no pé de todo mundo, estava especialmente complicado naquele dia. Entre uma reunião e outra, chamou Maria Paula de lado, mas manteve uma certa distância. E disse:

“Paulinha, tá tudo bem?”

Ela estranhou a pergunta… a distância, já que ele sempre falava as coisas de perto… e ela respondeu que tá. Ele perguntou se ela estava com piolho. Na lata. Ela, já estressada, ficou com uma raiva imensa. Foi aí que percebeu, involuntariamente, estava coçando sua cabeça. Parou na hora, e se controlou o dia inteiro. Não lembra de ter coçado nenhuma vez durante o dia… mas marcou um dermatologista.

Depois de uma semana, chegaram os resultados. Nada, ela não tinha nada na pele e nem no cabelo. Acharam que poderia ser uma esquizofrenia, ou uma doença conhecida que mulheres tinham uma vontade louca de arrancar os próprios cabelos, ou algo psicológico mesmo. Mas, enquanto discutiam o caso dela, Maria Paula já havia começado a dormir de toca e com as mãos amarradas naquelas luvas de forno. Ia trabalhar de boné ou uma toca super estilosa, e o chefe sabia da condição dela, por isso permitia.

Mas, era óbvio que tinha algo errado e todos percebiam. Entretanto, Paulinha era uma das melhores analistas de risco de investimentos da empresa, era melhor ignorar o problema dela, já que nada mudou. Em um dia daqueles, teve retorno dos médicos. Avisaram que a pele irritada e com coceira já havia morrido há tempos e que não havia ligação nervosa nenhuma… ela não sentia dor, calor, tato… nada… por isso ela nem percebia. Pediram para ela procurar na memória dela algum momento que ela coçou a cabeça depois do primeiro episódio da cama.

Ela procurou algo na sexta anterior a segunda que ela lembrou de coçar a cabeça pela primeira vez. Lembrou do xampú. Lembrou de ter ficado bastante estressada o fim de semana inteiro porque teve que trabalhar, passou a noite inteira de sábado junto com o chefe para resolver se um de seus clientes mais importantes deveeria ou não se juntar a um dos seus maiores concorrentes. Era muito complexo, ninguém podia desconfiar muito que isso poderia acabar num monopólio, oligopolio ou atrapalhar o mercado. Também lembrou que ficou com saudade da lasagna da mãe e de brioche.

Complicado… entre uma lei e outra, ela lembrou de ter coçado o cabelo, mas meio de raiva… lembrou de ter lido uma matéria, durante o almoço através do celular, sobre uma mulher que esqueceu quem é o marido fisicamente, mas sabe que é o marido, a definição e o próprio nome do marido, história e tudo mais. Mas, não conseguia identificá-lo. Ela sofria de uma doença chamada agnosia, e que é muito rara e complexa. Depois, constataram que ela apanhou um dia do marido e teve traumatismo craniano na parte occipital, a de trás, do cérebro, que cuidava das associações e memória visual, e que danos nessa área podem ser a causa da agnosia.

“Bizarro!” ela lembrou… lembrou também que no dia achou bizarro ela ainda sentir um pouco de interesse no chefe dela. Aquele que era um imbecil completo e que perguntou se ela estava com piolho… não tirava a palavra imbecil da cabeça. Mas, é um amor meio platônico, meio estranho, meio atração. Ele era um cara bonito sim, todo charmoso, mas um completo imbecil. Ela se apaixonou nele desde o primeiro dia de trabalho, mas como amar alguém que você despreza tanto? Que lhe ignora completamente? Ainda mais que tenha lhe usado e quando sumiu de cargo ignorou a relação deles. Disse que não prometeu nada e, convenhamos, Maria Paula sabia disso. Mas ele era um completo imbecil de qualquer forma.

Enquanto pensava isso, viu seu braço esquerdo se movimentando em direção a cabeça. Travou o movimento e se perguntava como o amor pode acontecer aonde menos se espera e se ela tinha se ‘endurecido’ demais, porque nem se dava abertura para chorar o amor perdido. “Estou muito estranha mesmo”, concluiu Maria Paula.

No dia seguinte, recebeu uma ligação de uma neurocientista dizendo que o cérebro dela estava com um problema de comunicação… que em algum momento não foi enviada a informação de que a coceira já tinha passado, e ficou em um ciclo porque o cérebro não sabe se a coceira passou ou não. Apesar de todas a células já mortas no local e vários emplastos e curativos, ela explicou que as terminações nervosas da coceira são diferentes e bem mais microscópicas que as outras que cuidam do calor, tato e dor, por exemplo… por isso sentimos coceiras em lugares bobos, ao ver uma aranha, por exemplo…

A doutora ainda disse que isso tinha a ver com estresse, frustrações, perdas irreparáveis… e que a coceira é um método de defesa do corpo. Mas, não no caso dela. No caso de Maria Paula, era um ‘bug’, uma falha em loop… um círculo infinito de informação errada. Maria Paula ficou incrédula. Ela tão inteligente e sagaz, tendo uma coceira por uma falha no seu cérebro?

Alguns meses depois chegou no trabalho, deu de cara com o chefe. Terno impecável, ele elogiou o cabelo dela. “Imbecil!”… se bem que o tratamento com a doutora neurocientista estava dando certo… ela não se coçava mais a noite, deixando de dormir de toca, luvas de cozinha e tudo mais. Ainda dava umas coçadinhas, mas parecia mais um tique nervoso. Ninguém nem lembrava dos bonés e boinas, e ela então, ainda meio atordoada com o elogio do ‘imbecil’, sentou na sua cadeira e abriu seu notebook. Tirou o casaquinho… obviamente, ela chamou a atenção dos homens do escritório. Estava tudo dando certo.

Logo que viu o primeiro email, era uma mensagem do dono da empresa, parabenizando pelo cargo novo na gerência… inclusive acima do ‘imbecil’. Riu muito por dentro, super orgulhosa. E nesse exato momento ouviu um parabéns no ouvido, sentiu o perfume do, agora, ex-chefe… arrepiou toda. “Agora eu sou a imbecil…” agradeceu os parabéns e aceitou ir tomar um café com ele. Queria saber qual seria a dele agora.

Conversaram sossegadamente e ele dando em cima descaradamente. Ela gostando, obviamente… deixou rolar. Em um momento, olhou para o braço esquerdo, sentiu um comichão… esqueceu. E ia sendo cada vez mais seduzida pelo ‘imbecil’… todos aqueles anos pareceram sumir e ele pediu uma nova chance com ela. Ahhh… mas era um “imbecil” completo…

Ela resolveu usá-lo agora. Propôs ir para o banheiro do café que estavam e fazer tudo que não puderam fazer nesse tempo todo separados. Ela viu os olhos do imbecil brilharem forte. Além de um calafrio e uma coceirinha na cabeça… mas nem levou o braço lá. Era tudo controlado agora.

Foram para o banheiro juntos, e tudo ocorreu. Depois de uns 10 minutos, ele já estava pondo a roupa de volta. Ela se sentindo muito mal, falou que sairia em poucos minutos. Sentiu-se “suja”, usada… haviam consumado todo o amor dela da forma mais triste possível. A coceira estava forte já… não aguentou… como era bom coçar a cabeça, retirava todos os pensamentos dela… mas era parar e ela lembrava do que tinha feito, do tanto que maltratava seus próprios sentimentos… e coçava de novo. Um pouco de alívio. Coçou-se por mais de hora.

O ‘imbecil’ entra no banheiro, um pouco preocupado, e chama pela Maria Paula. Através das portas consegue vê-la sentada no chão… e um líquido meio esverdeado. Entrou no banheiro com uma garçonete porque estava preoupcado com a “amiga”. Pensou que o líquido verde fosse um vômito, algo assim… pensou que o sexo que fizeram deu alguma congestão nela, ou, como ela mesmo disse, nunca tinha feito nada assim e ficou meio enojada do banheiro depois…

Tentou abrir a porta… conseguiu com um pouco de força… encontrou a Paulinha desacordada… com a blusa um pouco suja daquele líquido verde e ficou meio com nojo, mas tentou acordá-la. Viu sangue também… e agora estava realmente preocupado. Maria Paula abriu os olhos e ele perguntou se ela conseguia se levantar. Ela fez com a cabeça que sim e pediu um pouco de ajuda. Ele, mesmo com nojo, a segurou nos ombros e saíram do cubiculo… a garçonete que entrou junto perguntou para ela o que havia aocntecido e ela não se lembrava e ficou para atrás dos dois vendo a bagunça que teria que ajudar a limpar, já que a mulher que lava o banheiro não havia ido trabalhar: ela havia pegado conjutivite.

Depois que olhou aquela ‘gosma’ verde, se virou e ainda conseguiu ver os dois saindo do banheiro… ela apoiada nele e não conseguiu, soltou um grito de pavor… Maria Paula e o seu “amigo” assustaram-se… e ele perguntou o que havia acontecido…

– A cabeça dela tá com um buraco! Dá para ver o cérebro mexido! Cruz em credo, Senhor… nos ajude.

Antes que o ele pudesse entender realmente o que estava acontecendo, Maria Paula pergunta para ele:

– Quem é você mesmo?

* * *

compartilha aí, chefe: Add to Delicious Add to Digg Add to FaceBook Add to Google Bookmark Add to Reddit Add to StumbleUpon Add to Technorati Add to Twitter

Anúncios
2 comentários leave one →
  1. Segunda-feira, 31 - Maio, 2010 21:17

    Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii Garrafãooooooo vc com seus contos mirabolantes me surpreende cada vez mais, eu queria um final mais feliz para a tal M. Paula, mas contive com esse! hahahahahaha
    Bjossss

  2. adriele permalink
    Segunda-feira, 31 - Maio, 2010 22:25

    o paia é que meu olhar é um tanto descontrolado e eu li o “quem é você mesmo?” antes da hora… mas a música do sherlok holmes ajudou no suspense 😉

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: