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A (já esgotada) busca pelo significado

Terça-feira, 1 - Junho, 2010

Semana passada comentei com a Marina que aqui em São Paulo moro do lado de um salão de festas infantis. Salão caro, eu acho, pois os carros que param lá são carros bons. Já vi até aniversário de filho de jogador de futebol ali. Durante os finais de semana eu posso ouvir a gritaria das crianças no playground e a trilha sonora que embalam essas baladas sub-7. Chega a ser paradoxal ver a molecada brincar no escorregador ouvindo a Ke$ha dizer que escova seus dentes com Jack Daniels.

Tivemos uma conversa relativamente longa sobre isso – para os padrões MSNianos – e, segundo a Marina, isso é a erotização da infância. É engraçado ver como não existem mais brincadeiras de criança, sabe? Amarelinha, pular corda, pique-esconde, pique-pega, gato mia, mês. As crianças nem trocam mais figurinhas do álbum da Copa. Crianças não têm mais amigos, só alguns poucos e um monte de conhecidos. É como pensar no seu Orkut, que mostra 10 amigos de verdade e 989 pessoas que você nem costuma dizer “oi” quando tromba na rua. O que essa criançada faz é chamar os amigos pra ir em casa ver Crepúsculo no domingo à tarde, na hora do Faustão, ou até mesmo na hora do futebol, fazendo o pai ir para o quarto. No máximo, rola um sleep over, e um de video-game até a meia-noite.

Mas e os pais? Os pais também não tiveram infância. Eu, quando tiver meus filhos, serei da geração de pais sem infância. O máximo que eu fiz foi pular o muro de casa, tocar a campainha do vizinho, jogar bola na rua e trocar figurinha. Algumas tentativas frustradas de reviver pipa e pião também. Bola-de-gude, iôiô, cabra-cega, rolar argola, até mesmo amarelinha e pular corda já eram desvalorizadas na minha época de criança. Por isso, eu troco figurinha hoje, tentando reviver ou prolongar minha infância. Pais trocam figurinhas e jogam Wii.

Isso é, em grande parte, consequência da violência. Lembro que quando eu era pequeno (pode acreditar que eu já fui pequeno), minha casa não tinha muros. Apenas uma grade. Depois disso, um pequeno muro com uma grade em cima, que também era pequena. Mais tarde, um muro maior, substituindo a grade, mas sem aumentar o tamanho da proteção. Depois, um muro mais alto. E, por fim, cerca elétrica e aqueles sensores. Quando criança eu ia para o inglês à pé, caminhando por 15 quardras. Hoje, a terminação mudou e a idade que eu tinha quando fazia isso é chamada pré-adolescência. Parece uma coisa mais evoluída, com mais responsabilidades, mas minha irmã não pode caminhar as cinco quadras até o seu cursinho de inglês, porque no caminho, na melhor das hipóteses, pode ser assaltada. E eu não estou reclamando da minha mãe – acho até que ela dá a melhor criação possível dentro do que o mundo permite (beijos, mãe).

O que me preocupa não é nem a violência ou a restrição. O que me preocupa mesmo é o significado de tudo isso. Não da segurança. Da vida mesmo. Se não podemos aproveitar a vida da maneira mais plena, qual é o propósito? Vão dizer que a vida não tem significado. Eu sei. Mas a minha questão é qual o significado dessa falta de significado?

E relaxem. Eu não estou pensando em me matar apesar do teor questionador. Nunca pensei nisso. Sempre penso em matar os outros. Engraçado é que antigamente eu costumava pensar em uma situação em que me dariam uma arma, uma bala e eu poderia atirar em qualquer pessoa que eu escolhesse. Só uma pessoa. E eu tinha uma lista enorme, sempre ficava pensando se tal pessoa realmente mereceria o desperdício da minha única chance de matar. Pensava se eu estaria aproveitando aquele momento plenamente ou se eu me arrependeria (não por ter matado alguém, mas sim por não ter aproveitado a chance da melhor maneira possível) e no fim, eu sempre decidia que deixaria a chance pra depois, pois poderia surgir alguém mais merecedor de um tirambaço no peito. Hoje fui pensar nisso e percebi que eu não tenho mais essa lista. Não tenho nenhum nome. Não consigo pensar em ninguém que eu mataria caso tivesse perdão da lei.

Mas voltando ao que realmente interessa, essa falta de significado é tão evidente que eu também não consigo enxergar ninguém que adicionaria. Entende? Aquele cara que entra no seu grupo de amigos e agrega valor. Isso não existe. Não sei se já existiu um dia, mas hoje não existe. Todo mundo é muito confuso, muito cheio de problemas, e por mais que tenha várias qualidades, as melhores delas, acaba atrapalhando pelo excesso de problemas.

Comprei um livro essa semana, apesar das críticas ferozes da Marina. É o On the road, do Jack Kerouac, e nele tem uma frase que num primeiro momento eu achei que me explicava muito bem. Ele diz: eu não tenho nada a oferecer a ninguém, a não ser a minha própria confusão. Fiquei pensando nessa frase a noite toda. Pensei tanto que eu nem consegui dormir (é sério). E percebi que essa frase não me traduz perfeitamente. Quer dizer, traduz sim. Mas não só a mim. Ela traduz todo mundo. Ela traduz a sociedade inteira. Ninguém tem nada a oferecer a não ser a própria confusão e isso só tem piorado, pois somos criados de uma maneira confusa, em um mundo já confuso. A menos que seus pais sejam completamente loucos, você vai concordar comigo que você é mais confuso do que eles, né? É um ciclo, e nossos filhos serão ainda mais confusos do que nós.

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3 comentários leave one →
  1. Terça-feira, 1 - Junho, 2010 21:28

    cara… isso tudo me lembrou aquele filme “into the wild”… acho que aqui chama “na naturesza selvagem”… minha motivação pelo signifcado das coisas está nas mínimas ações que podemos ver. naqueles pequenos milagres.

    e só acho que temos que nos adaptar, mas não largar nossas raízes.

    por isso, soltarei pipa com a isadora e com meu afilhado assim que puder.

  2. Quinta-feira, 2 - Dezembro, 2010 09:30

    cê tá morando em sampa?
    essa cena eu queria ver e as vezes as mães acham que jack daniels é um novo plax!

  3. Quinta-feira, 2 - Dezembro, 2010 09:36

    não, lê!

    um amigo meu que escrevia aqui saiu e todos os seus posts automaticamente vieram para mim.

    ):

    mas, concordo contigo.

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