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A Casa Caiada

Quinta-feira, 2 - Dezembro, 2010

Lá vai mais um conto para uma música. A de hoje é “Casa Caiada” do Mombojó. O disco deles está grátis do site deles mesmo (http://www.mombojo.com.br), mas que tá fora do ar no exato momento! Divirtam-se!

* * *

Todo dia eu a buscava no ponto de ônibus. Sagrado… sempre essa rotina. Era o sol começar a baixar e eu saía para encontrá-la no ponto de ônibus. No caminho era sempre uma nostalgia tremenda, lembranças das coisas que vivi no bairro, das casas, das chuvas, da lama… de tudo.

E eu tenho certeza que ela vinha da cidade pro bairro pensando a mesma coisa. A lua começando a nascer, de certa forma, ajudava nessa nostalgia de gente antiga; aquele que deixa uma saudade tremenda de coisas que são tão insignificantes e momentâneas: eu sinto falta de pisar na lama e no barro logo depois de uma chuva, aquele friozinho bom, sabe? Já ela gostava muito era de ir me buscar na chuva – se bem que eu fazia isso intencionalmente também –  e na volta para casa ver que a casa fica com um pouco mais de brilho já que la era caiada. Mas, faz um bom tempo que não chove…

E quando o ônibus dela virava na avenida e ela me via, sempre aparecia aquele sorriso sincero que meio que indica que ela havia acabado de pensar em trilhões de coisas e chegado em uma conclusão nada animadora, como “fazer o que? é a vida!” e que se acostumou com aquilo. Eu não sabia o que fazer. Não sabia como me comportar melhor ou, sei lá… queria poder retirá-la daquela mesmice. Às vezes, a culpa era minha também.

Por isso, hoje, resolvi. Vou embora e quem sabe ela resolve esse tanto de coisa na vida dela. Afinal, isso era do meu feitio, da minha natureza; e na hora que o ônibus virou na avenida ela não me viu. Eu a via, ela não… eu havia me escondido ali perto e comecei a segui-la a distância. Apesar disso eu sentia o que ela estava pensando: desespero.

Mas, não por causa de mim. Desespero porque é perigoso mudar. Quebrar as mesmices… e por isso, eu sinto muito, mas não vou ficar. Não se pode ter medo disso! E eu percebi que ela, apesar do desespero, já estava se acostumando ao chegar perto de casa chamando meu nome e ninguém responder.

Como já disse, é da minha natureza. Nós não conseguimos ser assim, somos machos… e eu acho que a cada segundo sem que eu estivesse perto ela, melhor seria. Assim, parti. Sem pestanejar, sem me arrepender. Sentirei falta dos cafunés e todos os carinhos, dos momentos que amei e fui amado; mas acharei outra. Bem fácil. Só continuar assim, com esse meu charme vira-lata.

Aliás, como é bom ser um cachorro. Ainda mais vira-lata.

* * *

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