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Licença poética de Rafinha Bastos

Quinta-feira, 6 - Outubro, 2011

Quando eu era criança, uma professora qualquer que não me lembro o nome pediu para a sala algum dever de casa que envolvia montar algumas frases com algumas palavras (eu acho que era isso mesmo) e ficou bibelô para mim. Pelo que eu me lembro, eu havia esquecido de fazer essa tarefa e inventei a frase na hora: “uma fulana qualquer é um bibelô”. A professora praticou um certo “bullying” comigo – em termos modernos, na minha época ela só me coretou na frente da sala.

Fui para o recreio muito triste. Daquele dia para frente, minha vida não seria mais o bibelô que sempre outrora fora. Eu lembro de ter lido um termo assim em um livro… “fulana era um bibelô!”. Eu acho que foi no livro ‘O Grande Mentecapto’ do Fernando Sabino, mas nunca lembrarei. Voltando ao recreio e eu cabisbaixo, não fui jogar bola na quadra – o que chamou a atenção da diretora Rosa, uma grande fã minha já que eu era um ótimo aluno (cheguei a ganhar na oitava série uma medalha de honra ao mérito por nunca, veja: NUNCA, ter tirado nota baixa na escola. Algo que não se repetiu na faculdade, apesar dos meus esforços).

– Diego, o que houve? Por que não foi jogar bola?

– Dona Rosa, tô meio chateado. A professora tal [nome que devo ter bloqueado inconscientemente] me coretou na sala de aula…

E eu expliquei tudo à dona Rosa, que aproveitou a volta do recreio e deu um esporro homérico na professora. A professora pediu desculpas sinceras para mim, uma vez que isso poderia atrapalhar tooooooooodo o meu desenvolvimento como aluno, pessoa, ‘serumano’ e qualquer-outro-substantivo-legal-pro-momento. Eu não me continha em mim. Queria dar uma voadora lateral na professora e rir, mas preferi me conter e fazer um rosto sério e preocupado. Me lembro dessa preocupação: “não vou rir. Não vou dar razão para essa imbecil tirar meu momento.” Fiz cara de sério… uma criança duns 11, 12 anos séria. A sala em alfa, se segurando, querendo explodir em risos, destruição, libertinagem e barulho. E eu: uma criança monge, realmente focada e decidida em aproveitar o seu momento. Hoje, eu falo, de boca cheia, com licença poética, que uma mulher bonita é um bibelô.

Voltando pra atualidade, vimos aí o Rafinha Bastos sendo “castigado” e tirado da bancada do CQC pela piada em relação a Wanessa Camargo e o bebê dela. Eu vi isso ao vivo e soltei um ‘nohhhhhh sem noção’. Já ouvi piadas piores entre meus amigos, o que gerou sempre olhares assassinos de namoradas, espanto das pessoas ao lado, etc., mas que são apenas brincadeiras sem noção – muitos baseados em hipérbole, conforme, genialmente, o Guilherme Tomé, amigo do meu irmão e conhecido meu tweetou:

Só sei de uma coisa: sem a hipérbole, perderia 98% dos meus amigos.

Li muito sobre isso porque acho tudo isso muito complicado e importante discutir, porque estamos indo para um destino onde tropeçar em alguém gerará cartas de repúdio, processos, 100 chibatadas. E o pior ainda se essa pessoa for rica. Por exemplo, um texto do Daniel Martins de Barros, que cita um texto linkado dele uma frase muito legal:

Caros comediantes, despeço-me lembrando que o bobo da corte era o único que podia dizer certas verdades a respeito do rei e do reino, porque o fazia na forma de piada. Assim, desejo que vocês continuem sendo os bobos da corte modernos, mas que não se esqueçam que se ele errasse na mão e ofendesse o rei, acabava no calabouço ou sem cabeça.

Também li um texto da Rosana que fala do schaudenfraude (basicamente rir da desgraça alheia) que eu concordo bastante, outro texto do Rodrigo “Jacaré Banguela” Fernandes que fala o óbvio (coisa que anda muito difícil de se ver hoje) e o editorial do pai do marido da Wanessa Camargo.

As conclusões que cheguei são:

  1. primeiro e mais importante: eu ri da piada, mas achei sem noção. Se fosse com algum conhecido meu, não ficaria feliz. Mas também não iria querer a morte do Rafinha. Iria só espancá-lo até ele miar em esperanto quando o encontrasse na rua. É bem diferente.
  2. pô, o Rafinha é um cara foda, mas fala merda de vez em quando. Mas, quem não tem alguém que seja assim? Caso você não tenha, lhe convido a conhecer dois ou três amigos meus e você mudará de opinião.
  3. fazer uma hipérbole contra a Wanessa Camargo é bem pior que fazer uma hipérbole com os rondonienses?
  4. eu não faria esse ‘auê’ todo porque quem tá saindo ganhando disso é o Rafinha, que tá sendo um dos assuntos do ano.
  5. processar o Rafinha? Como? Por não ter noção?
  6. o CQC, por ter tirado ele da bancada, provou que só é custe o que custar quando o custar não envolve dinheiro, já que teve o rolo todo com o Ronaldo… que convenhamos, não pode lá muito criticar alguém. E isso me deixou griladaço, já que curto (ia) demais o programa.
  7. nem vou falar da carta de repúdio que o Marco Luque fez porque nem precisa, né? Um idiota completo.
  8. achei digno nem a Wanessa e a família dela (incluindo o marido) se pronunciarem sobre o caso. Eles vão ter um filho, né! Tem mil e uma coisas mais importantes para pensar.
  9. achei massa o Danilo Gentili também achar ele fora da bancada uma palhaçada imensa.
Ainda no ponto 6 e 7 acima, o @victorleal1 dos Melhores do Mundo fechou o CQC em um tweet:
Sei lá, vejo o Rafinha igual um dos meus melhores amigos que tenho. Ele precisa de orientação, de rédea, às vezes. Por causa disso, esse meu amigo namora a menina mais brava do universo. E só. Mas, se em todo lugar tivesse uma diretora (ou um cargo afim) como a Dona Rosa, ou a namorada desse meu melhor amigo, ambas resolveriam isso com um esporro homérico em todo mundo e o politicamente correto não tinha virado o politicamente chato.
E… um sonho: o Rafinha Bastos não voltar pro CQC. Só pra galera ver o que significa ‘custe o que custar’.
P.S.: fazia um tempão que não escrevia aqui. Digamos que foi um hiato para ficar fino.

P.S. 2: tia Gláucia! Lembrei o nome da energúmena. E hoje eu divido o apartamento com uma Gláucia.

P.S. 3: temos coisas mais importantes para pensar agora: o Jobs morreu.

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2 comentários leave one →
  1. Nathalie permalink
    Quinta-feira, 6 - Outubro, 2011 12:32

    Um tema bem complicado, ainda mais após o comentário, no mínimo, infeliz sobre estupro…
    Mas, feliz com sua volta! Excelente post! 😀

  2. Quinta-feira, 6 - Outubro, 2011 18:34

    A piada não foi NADA feliz, o Rafinha já foi muito mais inspirado, mas o afastamento só mostra que o CQC tá perdendo a força – e a graça. Faço minhas as suas palavras.

    Sem mais, meritíssimo. =)

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