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Aldeia global

Sexta-feira, 24 - Fevereiro, 2012

É sabido por 97,6% das pessoas que me conhecem o tanto que curto e participo de redes sociais. Minha namorada, e mais 85,4% das pessoas que sabem o tanto que eu curto e participo de redes sociais, acham que sou overconnected, ou seja, além da tradução literal, tenho uma solução na net (e já no smartphone) pra quase tudo.

E eles não estão errados. Sou fascinado por redes sociais por vários motivos; dentre eles destaco alguns mais interessantes:

  • é engraçado o fato de sermos o bicho mais inteligente da Terra (quiçá do universo, mas eu acho difícil) e grande parte do nossa representação como um “bicho social” estar num processo computadorizado e criamos uma dependência perde-ganha, quase sempre, com as empresas por trás das redes sociais – inserimos todos os dados possíveis da nossa vida nelas e sempre acusamos as redes sociais de serem muito invasivas
  • é uma fonte de bullying cibernético infinito
  • é a ferramenta mais completa para ação social que existe

Acima de tudo, as redes sociais são a representação mais pura do que é, ou deveria ser, a internet. É o compartilhamento e relacionamento de informações (dados, talvez) no seu conceito mais simples. Mas, esse local não se pode compartilhar tudo, não se pode simplesmente curtir algo fora do comum. Existe um conceito de moral e bons costumes na internet – e cada vez mais dá vazão à uma necessidade de se legislar a internet – e as redes sociais vieram exatamente para abalar o conceito de liberdade de expressão, do que é aceitável ou adequado ao bom senso. Nesse ponto não vejo a necessidade de dar exemplos, né?

E, nisso tudo, o famigerado e fantasioso termo “aldeia global” – muito utilizado ao se falar sobre globalização e um pouquinho preconceituoso – se encaixa bem. Veja só: sendo bem preconceituoso e com o embasamento teórico me dado pela televisão (por isso é bom utilizá-lo aqui pois tenho licença poética), em redes sociais somos índios. Mas aqueles índios “preguiçosos” e que curtiam uma guerra por “nada” (esse última característica e o adjetivo anterior também foram embasados na visão colonizadora portuguesa e em alguns livros indianistas – mas não ilustram a realidade, tá!).

E todo índio preguiçoso e beligerante precisa de uma aldeia. Onde está sua aldeia, índio velho? Nas redes sociais. E nesta aldeia podemos, em tese, compartilhar fotos de apoio à um levante popular em país que male-male tem acesso a internet (e quando tem, é controlado pelo governo) para nos sentirmos parte de algo. Para fazermos justiça… para lutar contra aquela outra aldeia de índios que, normalmente, conhecemos minimamente através da tevê ou de discursos inflamados e uni-laterais no youtube, praticam algum abuso que, na verdade, você viu em algum link ou post mais político.

As redes sociais são as muletas que precisávamos para “coroar” o tão esperado século XXI. É o novo ópio do povo.

Mas nem por isso deixa elas de ser algo extremamente legal. São nas redes sociais que podemos nos organizar e fazer nossa voz valer um pouco mais do que historicamente, como sociedade, ela sempre valeu. Exemplos disso temos vários: crowdsourcing, crownfunding, SACs no facebook, etc. Mas uma me chamou a atenção por ser totalmente diferente.

Você conhece Joseph Kony? Esse cara é mais um de uma lista infinita de assassinos em massa na África. Mas, a cagada dele é que houve um crowndsourcing para capturá-lo. Como também há um crowndfunding. Eu tô falando desse “viral” hoje, mas ele é de ontem. Vejam só: um cinegrafista e filmmaker com boas intenções (na minha opinião) chamado Jason Russel foi a África alguns anos atrás procurando por uma história. Encontraram um menino que tinha sido soldado desse Kony e, obviamente, as atrocidades que foram cometidas contra esse garoto são revoltantes. Mas, esse Jason falou que ia dar um jeito nesse problema. E deu. Criou uma comunidade no Facebook (Invisible Children), juntou pessoas engajadas nesse problema e, apesar de alguns perrengues, conseguiu que o governo americano mandasse tropas para treinar o exército de Uganda para pegar esse assassino. Entenda tudo vendo o vídeo:

KONY 2012

Ontem e hoje me deparei com algumas notícias acerca disso tudo com o seguinte foco: a história todo era vista mais como “o maior viral de todos os tempos” do que “quer queiram, quer não, fizeram os EUA escutar a demanda de um grupo de pessoas para eles fazerem alguma coisa, quer queiram, quer não, sem ter uma guerra por trás ou algum motivo forte por trás – seja dinheiro ou ameaça a segurança nacional”.

Às vezes a beleza da ação em relação ao Kony é deixada de lado por meros números. Nisso, eu estou sendo bastante ingênuo para não acreditar que isso não caiu como uma luva para o atual momento dos EUA (eleição, Bin Laden e Sadam mortos, novos fronts de batalha, investimentos militares, etc.). Isso, pra mim, agora não importa. O mais legal é todo mundo se organizar por um bem maior através das ferramentas de redes sociais que amplificam qualquer coisa. Inclusive na altura que seja necessário para mudarem as coisas. A ideia final para todos participarem é viralizar as fotos do Kony para ele ganhar notoriedade e todo mundo perguntar quem é ele?

Detalhe numa das fotos da campanha (abaixo) ele tá sendo comparado ao Osama e ao Hitler. Me pareceu meio muito proposital, não? Porque não pegaram outro assassino em massa na África já que a ideia é conscientizar.

Amigos, será que a internet vai fazer o poder finalmente ficar nas mãos do povo? Eu acho que sim. De uma forma ou de outra. Mas, e se a captura do Kony der em nada? Vamos ter a certeza que somos índios (daquele jeito que falei) e que nossa aldeia global é global na hora de compartilhar, mas na hora de lugar é cada um na sua oca?

P.S.: só vejam esse outro lado num 4:20 do Trabalho Sujo: http://www.oesquema.com.br/trabalhosujo/2012/03/09/420-1648.htm

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